Para T.T., que sempre me inspira
Fica no quarto o vestígio doce de algum perfume, a joalheria esquecida na cômoda.
O amante alisa o lençol como se ela ainda estivesse ali. As nuanças das superfícies do corpo onde estivera pela primeira vez são convertidas em toneladas de adjetivos. Sua mente é inquietude e ansiedade.
Ai dela!
Mal sabe que já foi toda e completamente marmorizada, canonizada, incensada, tornada flor, gema, seda, óleo, metal precioso, astros e efeitos celestes, arvores nobres...Suas virtudes ao superlativo, seus dons ao infinito, sua origem feita divina, seus gestos coreografia, sua voz partitura, seus títulos à realeza, seu semblante um milagre grego.
Ignora, a moça, que será rebatizada - e ai dela, se não corresponder ao título, que seu amado tão amorosamente declara.
Mas! ele ainda tem dúvidas, oh, varão!, quanto ao galardão do fardo: nobre princesa ou divina estatuária?
Dulcinea ou Galatea?
...
A mulher não imagina o peso de sua imagem para um homem - pesa mais que uma armadura de ferro... O homem, não imagina o peso dessa imagem devolvida à mulher: insuportável rocha. Só mesmo a compaixão de Afrodite, para os devolver à vida!